sábado, 8 de junho de 2013

Eu, é pena, tenho perdido confiança em mim mesma.
Triste como aquele, obsessivo compulsivo, que checa as gavetas incontáveis vezes.
Os sapatos, os livros dentro do carro, o fio dental dentro da bolsa. As circunstâncias que desperdiço.
A agenda da agenda da agenda. O relógio do relógio do relógio.
Damn it!
Perde-se a juventude, perde-se o impulso. Saber para quê, se o que importa é o arriscar-se. Hoje acordaria menos sabedora de coisas, hoje queria ser uma coisa branca sem inscrição, sem mancha, sem falha. Pudera desaprender tudo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Na vida não se pode querer tudo.
Uma cabeça que pensa o amor não deixa sentir o amor.
Uma cabeça que pensa o amor escreve, recita, se aprofunda nos escuros próprios. Leva o corpo às inexistências, porque a cabeça é tudo o que há. O corpo se acaba em tavernas, em hábitos, negligências. O corpo não existe mais só, é magro, invisível, é fino, patético, infantil. (O corpo precisa de um outro corpo pra ser corpo).
A cabeça que pensa o amor mata o amor.

blow out

Os índios no Xingu raspam a pele pra tirar o sangue ruim. Da pele quente sai fumaça, do seu olhar – um olhar em brasas.
A amante, no auge de toda entrega, lhe sangra o cotovelo, tirando o sangue ruim, libertando o jovem Franz da dormência que lhe invalidava o braço, o viver, o sentir – sabe-se lá.
Sangrar o sangue ruim, o sangue pisado, a água turva e empoçada, romper a bexiga purulenta que segura o que não quer sair.
Por certo que me deveriam sangrar o coração inteiro, o invólucro escuso que represa a lava morna e petrificada que, de espessa e suja, não passa por veia nenhuma, deixando o corpo frio como o de um filhote moribundo, e que não encontra forças nem pra morrer. (É preciso esforço até pra morrer).
A cama, o chão, o azulejo, toda superfície é fria, dura, cortando a pele pelo encontro com os ossos.
Alguém que me sangrasse como se sangram porcos, fazendo um orifício pelo caminho da axila, alguém pra expulsar, mãos fortes, brutas, me segurando pra não escapar, fazendo ecoar o grito agudo até o outro lado do morro, talvez fizesse do órgão não uma bola recheada do pútrido, talvez de bexiga ele passasse a esponja, como o pulmão, podendo se inflar, se não de sangue, talvez de ar, como uma quase ausência, com espaço pra respirar.

sábado, 6 de abril de 2013


Acho que lá se foi o último caco, mas sempre encontro mais um e mais um pela casa, o que me faz lembrar de noites mal dormidas. Varrer pra debaixo do tapete, esconder de si mesma pós e restos de coisas que vão se depositando, pesadas como mercúrio.
Mas mais uma parte de uma coisa, mais uma parte e os cacos são peças de você mesma. E a matéria de que são feitos nada difere do que também te forma.

domingo, 17 de março de 2013


Líquido mercúrio cromo. Rastros em veias e próprios sulcos que nascem dos rastros todos. Em pele, em pelo. Desenho do que escorre e mancha e suja o seco branco da pele. Sangue. Tinto. Espinho. Broto que brota e do que esparrama quente – quase um carinho. No peito, um risco. Ponta de faca.  Lança em riste. Triste estribilho.