Às vezes, alguém transvestido de pássaro tenta fazer algo. Mas as
coisas se perdem em detalhes. O que é suave se perde por falta de distração.
Uma buzina, uma seta, e as coisas de nowhere acabam virando coisas.
Um rubor, um desaconselho. Pensa-se pensar em coisas. Mas as coisas é que
pensam. Tomam forma, incidem como um tambor, tintilam e parece-se nunca sair do
carro, parece não ter fim o caminho, assim como não tem fim as músicas que se
repetem no radio.
Tudo é um preço que se paga. Finge-se ignorar, pensa-se ser imune às
atrocidades do que é visível. Nada dá lugar à música de fundo, à palavra que
faz prequiça de lembrar. É muito transeunte. São muitos ombros que levam quase-ideias
como enxurrada. O fugaz que se esvaia bueiro abaixo, o sublime que se
corrompa!! E o amor. Esse que fique pra depois.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Ele pirou.
Ele pirou. (diria um narrador de maneira
eloquente)
Uma escolha errada na vida. Um sufocamento
pelo orgulho e outro orgulho de não poder voltar atrás. Coisa de homem. Coisa
de honra. Honra é coisa de homem.
Não podia ser dele, não podia.
Com a Eulália, foi só uma vez. Uma meia vez,
porque ela era virgem. Dizia que era.
Depois, a estória de que o Fúlvio tava
pegando ela também. Aliás, no mesmo dia que eu. Assim disseram. Uma vagabunda,
só poderia pensar. Justo ela, tão virgem, tão branquinha, tão
bicho-pra-ir-curtindo-na-pouca-rédea-de-moça-que-era-pra-casar. Tão linda.
Usava um anelzinho no dedo médio – presente de quinze anos. As tardes de
domingo eu passava com ela. Sorvete. Passeio na praça – ela fazia pequenos
buquês com os pendúnculos das flores. Eu amava ela. Na verdade, eu amava. Dizia
que ia casar.
As sextas eram pra gastar com as primas. A
Eulália era pra casar. Eu pensava que tinha que preservar. Coisa de homem.
E aí, a notícia. Ela grávida. Ela veio me
contar na saída do trabalho, ainda com a roupa da escola. Ela esperou tudo de
mim. Ela acho que eu ia acreditar, apoiar, adiantar o plano do casório, sei lá.
Ela nem parecia tão triste ou tão desesperada. Eu, atônito, encostado no muro
de chapisco. Ela falou, falou. Espalmava as mãos. Cabelo preso pra trás. Eu
falei qualquer coisa pra dentro, quase “licença”, peguei a moto, dei partida e
fui embora. Fui embora mesmo, não pra casa, pra república onde morava, nem pra
casa de ninguém, fui embora. Até a próxima cidade e a próxima e a próxima. Passei
a trabalhar numa mecânica, depois numa mercearia, depois num açougue.
A menina nasceu com um probleminha, fiquei
sabendo. Não podia mesmo ser minha. Da Eulália, pouco fiquei sabendo. Foi
mandada embora da casa dos pais, foi parar na casa de uma tia no norte do
Estado, foi trabalhar de doméstica, foi merendeira. Ela queria fazer
contabilidade. Queria trabalhar no banco. Achava chique ser bancária.
Não tinha essas coisas de DNA. Não tinha.
Hoje, a prova da compatibilidade
cromossômica não paga o tempo perdido, não apaga a culpa. Mais de 20 anos se
passaram. Uma estrada que se ilumina apenas pra trás, assim é a experiência,
como dizem.
A menina precisa de cuidados. A Eulália já
se foi. Os avós, ainda que tão frios, não estão mais por aqui. A tia, já era
velha naquela época.
A única coisa que me salva é a inocência que
seu intelecto infantil deixou intacta. Minha eterna criança.
E, hoje, somos só eu, ela, a estrada e o
tempo que ainda nos resta.
Eu
desisto Não existe essa manhã que eu perseguia Um lugar que me dê trégua ou me sorria E uma gente que não viva só pra si
Em algum lugar escondido por
pedras que não indicam um caminho é 1988. Usa-se uma camisa polo lilás que
alguém esqueceu em casa e ela passou a fazer parte dum acervo comumente povoado
de camisetas de campanha política ou campanha salarial ou qualquer luta. De
punhos rentes, fazia com que os braços tivessem bíceps fortes. Eu gostava de me
perder de admirar.
Ao que se discutia alto, porque se
discutia tanto e ao mesmo tempo na mesa de lata enferrujada, ainda que cervejas
geladas em copos Nair untassem a fala, pigarreava-se, um pouco do frio, um
pouco do tanto dizer, o que poderia ser rebatido com um caldo de mocotó em
outro lugar, onde alguém recomendasse que se desse a saideira.
Cruzavam-se os braços com o dedão
debaixo das axilas, o que, de novo, colocava a camisa e o apresentar-se dentro
dela como uma coisa bonita de se ver, tão apropriado parecia.
Eu, secretamente, aguardava o dia
em que, novamente, após o talco Banho a Banho, a cabeça descabelada se enfiasse
por dentro da gola da camisa polo lilás e o herói se compusesse, abotoando-lhe
até o pescoço, em pomo rente, pelas aparências que ela fazia emergir e justificava.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Eu tenho ciúme. Eu tenho sede. Eu tenho saudade.
Eu tenho algo sem nome, algos indizíveis que me fazem arder a pele de dentro pra fora. Fumaça metafórica, sangue que molha as pálpebras. Quando fico assim, não sei se sou, ou não sei se só sou. Quando fico assim, rede nenhuma, varanda nenhuma, nem lampejo reluzente de peixe saltando pra fora da noite escura em Paraty.
Me acalentariam as únicas mãos que poderiam me acalentar? Por debaixo da árvore que chora nódoas, também eu choraria suave em confortos os medos em seus ombros.
Conforto.
Deus, resignação.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Gotículas penduradas.
Melhor eu mudar de emprego, de profissão, porque a porteira se abre, vem a enxurrada – já a escuto adiante.
Orvalho se dissolve, coisas pequenas passam a não ser, tão intensa é a água que está por vir.
Em verdade, já chegou. Em verdade, já se anunciou. Prenúncio na boca da madrugada.
Ontem, ela me chamou. Sedutora. E eu já embebida de lágrimas e repetição. Não fosse a obrigação, não fosse um lampejo de lucidez (?), de saber que preciso bater o ponto, de saber que há prazos sobre a mesa, sobre a cabeça, elevadores em incessante desce e sobe, não fosse o duro dos dias, teria me entregado em noite-solidão.
É romântico se entregar. É bonito doer.
Mas me agradece o passo adiante. O passo cotidiano. Saber haver outras palavras, outras que não amor, dor. Outras, esperando ser escritas: “inadmissível a modificação do julgado, por meio de embargos de declaração”.
E saber é não ser. Fingir ignorar.
(Continuar nem sempre é continuar)
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
tem uma pedra no meu coração
digo não é uma pedra meu coração;
tem uma pedra
do tamanho de um punho
do tamanho de quase todo coração
pesado
bate lento
lento como a gorda mulher presa na cama, sem poder se levantar
lento sem primavera, verão
o tempo é cão -
lembra de vez em vez meu coração
nada é leve,
galhos, ramificação
pó, calcificação
hoje não vou conseguir dormir
enquanto essa voz que invento
repete, repete
no canto do ouvido
repete, repete
"the greatest, the greatest, the greatest..."
só ela é líquida
desliza como mercúrio
e o único resíduo que deixa é o arrepio
mais leve do que sopro sobre pele
em lembranças menores do que quase inexistente penugem
e em mim continua a música
ainda que alguém levante a agulha
ainda que o acorde se suspenda sem explicação
em mim continua a batida do bumbo em pele frouxa
lenta
lento meu coração
chorava o vinho
chorava a madrugada
escorria lágrima
em taça
curvilínea
como em corpo de mulher
- pista sem farol
na madrugada
chorava
a despeito da viola simbolista
longínqua qualquer nota,
qualquer aliteração
dentro, a madrugada:
reverberação
dançam, ignoram os passantes
comemoram qualquer coisa
buscam nada
sabem nada
- impertinentes!
agora e sempre chora a madrugada
macio busco colchas e cabelos
macia é coisa nenhuma
encharca madrugada
escorre em taça
lágrima curvilínea
já é dia e ainda insiste
a madrugada